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Luto em tempos de pandemia

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17/05/2021 20h15
Por: Redação
Fonte: Redação Portal Fronteiriço

A preocupação com a saúde mental da população se intensifica durante uma grave crise social.

A pandemia da Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) pode ser descrita como uma dessas crises, a qual tem se caracterizado como um dos maiores problemas de saúde pública internacional das últimas décadas, tendo atingido praticamente todo o planeta (World Health Organization [WHO], 2020).

Um evento como esse ocasiona perturbações psicológicas e sociais que afetam a capacidade de enfrentamento de toda a sociedade, em variados níveis de intensidade e propagação (Ministério da Saúde do Brasil, 2020a). Esforços emergenciais de diferentes áreas do conhecimento - dentre elas a Psicologia - são demandados a propor formas de lidar com o contexto que permeia a crise.

A COVID-19, nome da síndrome respiratória ocasionada pelo novo coronavírus, foi inicialmente detectada em 2019 na cidade de Wuhan, capital da província da China Central.

Ela atingiu as pessoas em diferentes níveis de complexidade, sendo os casos mais graves acometidos de uma insuficiência respiratória aguda que requer cuidados hospitalares intensivos - incluindo o uso de ventilação mecânica (Centers for Disease Control and Prevention [CDC], 2020).

Até meados de abril de 2020 haviam sido contabilizados mais de dois milhões de casos notificados e quase 150 mil mortes no mundo, com os Estados Unidos (EUA) liderando a quantidade de óbitos (mais de 25 mil).

A facilidade de propagação, a falta de conhecimento sobre o vírus e o aumento exponencial do número de contágios fizeram com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) elevasse a doença ao status de pandemia em março de 2020 (WHO, 2020). 

Infelizmente os dados aumentaram neste ano de 2021. Até o presente momento são mais de 163 milhões de pessoas no mundo que foram infectadas pelo vírus Covid-19 e suas novas sepas. E mais de 3 milhões de pessoas não resistiram a luta contra o vírus Covid-19 e vieram a óbito. 

O luto na era COVID-19

A perda de alguém que nos é significativo representa um acontecimento de vida potencialmente destruturante. Por mais que a morte seja um destino inevitável, é a verdade; um tema doloroso na nossa sociedade. O luto é assim uma resposta natural à perda de algo ou alguém significativo. É um processo psicológico necessário, permitindo ao enlutado vivenciar a sua dor emocional e adaptar-se gradualmente a um novo contexto de vida onde o ente querido está ausente.

O luto engloba um conjunto de manifestações clínicas, isto é, diversas respostas físicas, emocionais, cognitivas (pensamentos) e comportamentais face à perda.

  • Manifestações físicas: como a sensação de aperto no peito, vazio no estômago, falta de ar, cansaço acentuado…
  • Manifestações emocionais: tristeza, ansiedade, culpa, raiva, choque, solidão, saudade…
  • Manifestações cognitivas: preocupação, choque, negação, confusão mental, pensamentos ruminativos (não conseguir parar de pensar no ente querido ou nas circunstâncias da perda) …
  • Manifestações comportamentais: chorar, alterações do sono e do apetite, isolamento, agitação física ou sensação de lentidão…

Na verdade, não existem dois processos de luto iguais. Contudo, alguns fatores podem influenciar a forma como cada pessoa irá vivenciar o seu luto, fatores que podem facilitar ou dificultar este processo, como a qualidade e o tipo de relação com o ente querido, a presença ou ausência de suporte social, as próprias características de personalidade do enlutado e, ainda, as circunstâncias que rodearam a perda, isto é, a forma como a morte ocorreu. Importa destacar este último ponto, onde os estudos científicos indicam que parecem ser a perdas inesperadas, como situações de acidente ou doença súbita, que tornam o processo de luto mais difícil de ser elaborado, sendo até frequentemente designado de “luto traumático”. E perante o surgimento de uma pandemia a nível mundial, totalmente inesperada e que veio desafiar a nossa capacidade de controlo enquanto seres humanos, como “ficam” os lutos na era COVID-19?

 

O luto e a COVID-19

Desde o início da pandemia, somos diariamente invadidos com o tema da morte. Este confronto diário parece inevitavelmente suscitar a reflexão sobre a nossa própria finitude enquanto seres humanos. Sentimo-nos, por isso, mais vulneráveis e angustiados. Por mais que na atualidade o conhecimento sobre a pandemia seja mais sólido, a verdade é que as perdas por COVID-19 continuam a ser abruptas, difícil de encontrar um significado, surgindo frequentemente pensamentos como “Se esta pandemia não tivesse acontecido, ainda estaria vivo, pois estava bem de saúde…”. Ademais, o confronto diário com a morte pode evocar perdas passadas e trazer “ao de cima” lutos não resolvidos, representando uma angústia diária acrescida.

Devido ao distanciamento social exigido, frequentemente não existiu qualquer tempo de despedida por parte dos familiares. Nestas circunstâncias, assuntos ficaram pendentes, palavras ficaram por dizer, colocando a pessoa em luto num estado de grande angústia e de culpabilização. Não podemos esquecer ainda as restrições inerentes à realização das cerimónias fúnebres, as quais possuem uma função adaptativa muito importante. São rituais que permitem expressar a dor da perda, representar um momento de concretização das despedidas e de permitir a coesão social. A impossibilidade de estar presente no funeral ou de não existir a oportunidade de este ser realizado dentro das circunstâncias desejadas representa um fator de stress acrescido.

Este fator pode dificultar a aceitação da própria perda, levando ao adiamento deste processo e potenciar, assim, o desenvolvimento de lutos traumáticos e problemas psicológicos, nomeadamente quadros clínicos de ansiedade e depressão.

O luto é também uma experiência familiar. A perda de um ente querido provoca uma desintegração no sentido de “unidade intacta”, onde a família terá que reencontrar a sua identidade e aprender a viver com o elemento ausente. Cada familiar terá o desafio de saber gerir o seu próprio sofrimento, mas também confrontar-se com as reações emocionais dos restantes elementos do agregado, que podem ser naturalmente distintas no sistema familiar. Por vezes, estas diferenças podem suscitar alguns conflitos no seio familiar, por um elemento, por exemplo, revelar uma maior necessidade de abordar a perda e, outro familiar, necessitar de um maior isolamento. Tolerância e empatia revelam-se assim necessárias, pois o luto é uma vivência única.

Neste luto familiar, é ainda frequente que os elementos mais jovens sejam “esquecidos”, com o intuito de proteção por parte dos cuidadores e de os afastar do sofrimento emocional. Contudo, desviar as crianças da vivência do luto tem um efeito negativo, levando ao bloqueio das suas emoções e potenciar o desenvolvimento de problemas psicológicos futuros. Serem parte integrante deste processo de perda permite, ainda, o desenvolvimento da sua maturidade emocional e resiliência. Revela-se assim fundamental uma comunicação honesta, acolher os elementos mais jovens neste processo, adaptando, naturalmente, as explicações sobre o que está acontecer consoante a idade e nível de compreensão da criança. 

Sugestões para a pessoa em luto

  • Aceite e permita-se a expressar as suas emoções face à perda, pois “bloquear” o processo de luto só intensificará o seu sofrimento emocional;
  • Evite o isolamento, procurando conversar com familiares e/ou amigos que funcionem como fonte de suporte;
  • Comunique de forma assertiva as suas necessidades, para que familiares e amigos que o rodeiam possam também saber como apoiar;
  • Tente não se sentir pressionado perante exigências externas de como “se deve ou não fazer o luto”. Não existe uma forma correta de fazer o luto. É importante respeitar o seu próprio tempo e ritmo;
  • Na impossibilidade de despedida e realização de uma cerimónia fúnebre, encontre a sua forma particular de prestar homenagem ao ente-querido. Como gostaria de prestar uma última homenagem? Para algumas pessoas, recorrer à visualização de fotos do ente-querido, acender uma vela, partilhar memórias em família ou até construir uma caixa com “legados” (por exemplo, com objetos que pertenciam ao ente querido) funcionam como rituais importantes e tranquilizadores;
  • Dentro do possível, continue a investir em atividades ou tarefas que lhe dão prazer. Não sinta culpa por permitir-se sorrir ou ser feliz, pois “os sobreviventes continuam vivendo”.
  • Valorize o autocuidado, apostando na sua saúde física, como manter uma alimentação saudável e um padrão de sono regular, e emocional;
  • Se sentir que o seu sofrimento está a perturbar significativamente o seu dia-a-dia procure ajuda profissional. Um profissional de psicologia pode ajudar.

Fontes: Saúde Bem Estar/ Fiocruz / Jornal da USP

DANTAS, Clarissa de Rosalmeida et al. O luto nos tempos da COVID-19: desafios do cuidado durante a pandemia. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 2020. 

Schmidt, Beatriz, et al. "Impactos na Saúde Mental e Intervenções Psicológicas Diante da Pandemia do Novo Coronavírus (COVID-19)." (2020).

Faro, André, et al. "COVID-19 e saúde mental: a emergência do cuidado." Estudos de Psicologia (Campinas) 37 (2020).

 

 

 

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